Manuscrita versus TPC’s



Vivemos num país à beira-mar plantado, cheio de sol e com um abençoado céu azul. Onde a simpatia impera sempre que falamos de turismo e estrangeiros. Bem, depende da perspectiva, mas esta é uma conversa que vou deixar para outras núpcias!

Entenda-se que hoje, referi o estrangeiro já sem qualquer tipo de frustração, apenas no sentido de estabelecer um paralelismo e enaltecer um pouco a EDUCAÇÃO que se pratica no nosso país. Coisa que a maioria de nós raramente faz. Afinal, é sempre muito mais fácil deitar a baixo ou denegrir a imagem de algo, certo?!

No meu caso, a opinião é outra. Vamos olhar para o que temos de bom, para o que nos é precioso e de atestado sucesso. Pois se não o fizermos, garantidamente mais ninguém o fará. E o que não é tão exemplar, é fazer por isso, melhorar, investir, renovar... ao invés de mal-dizer!

Tal e qual rainha má na história da Branca de Neve:
- Espelho meu, espelho meu existe algum país mais belo do que o meu?! – enaltecido e vaidoso, o espelho responderia:
- Existem belos países por esse Mundo fora, com tantos atributos. Mas um como o teu é raro, pois tem quase tudo: praias, campo, montanha, neve, calor e temperaturas amenas. Boa comida, gente hospitaleira, excelentes profissionais... há mesmo quem percorra oceanos e tempestades, em busca da qualidade portuguesa. Têm dúvidas?! Claro que sim!!
No meu pequeno passeio pelo exterior, tive oportunidade de ver e aprender algumas coisas. Constatei que há muitas idênticas e que aquilo que nos inquieta, é por vezes o mesmo que inquieta todos all over the world!
Uma coisa posso assegurar-vos, somos afamados de mil coisas, no bom sentido, pois então! Quanto a mim, o que mais me preocupa é continuarem a usar-se modelos falhados por outros. O não renovar, o chover no molhado... porque receamos arriscar, quando outrora partimos à conquista do Mundo?! Porque não empreender de uma vez no sucesso?
Contextualizações à parte, em Portugal, como em quase todos os países, findo um período escolar, os encarregados de educação são quase sempre convidados, a ir à escola para receber informações de todo o trabalho realizado pelos seus educandos, bem como daquilo que falta leccionar, e consequentemente, noticiados dos seus maiores ou menores sucessos. Traçam-se linhas de trabalho, projetam-se objetivos e disponibilizam-se esclarecimentos de parte a parte, sempre que solicitados.

Acho que sempre tive uma postura um pouco passiva nestas reuniões. Apesar de ser professora, limitava-me a escutar atentamente. Tinha sempre a barreira linguística, pelo que era prioritário entender e muito importante, registar e adaptar-me a um sistema em algumas coisas diferente daquilo que conhecia e a que me habituara.
Evidentemente que houve momentos em que tive vontade de puxar as orelhas a alguns pais e enaltecer os professores, porque saltava à vista nas suas intervenções impróprias, que o acompanhamento que faziam dos seus filhos era parco e obviamente, isso refletia-se nas suas atitudes e resultados. Enfim, falamos muito e questionamos mais ainda, quando na maioria das vezes não escutamos primeiro ou não estamos realmente atentos.

Hoje em dia, o caso mudou de figura e devo dizer que estou o tempo todo a controlar-me para não ferir susceptibilidades. Tinha prometido a mim mesma  que não voltaria a este assunto, mas chega a ser hilariante a incoerência natural, com que algumas pessoas abrem a boca, sem antes refletirem um segundo.

Uma perfeita perda de tempo, para todos. E tempo é dinheiro, é vida.

Final de tarde de terça-feira, reunião de fim de segundo período. A professora do 1º ano preparou uma apresentação com os conteúdos leccionados nas diferentes áreas disciplinares, referiu depois justificando o que está em atraso e mencionou finalmente o que programou fazer ao longo do último período do ano letivo. Projetou ainda um pequeno filme ilustrativo de diferentes momentos em contexto de sala de aula dos nossos filhotes.
Excelente partilha, excelente trabalho... instantes que me levaram às lágrimas. E claro, aqui a totó esteve sempre a tomar notas!
Ah, sim! O que já sabemos, o que precisamos saber, conselhos...

Sem dúvidas ou questões, dá-se a reunião por terminada.
Enquanto assinamos as avaliações Qual não é o meu espanto quando o mesmo espertinho de sempre, decidiu dar asas à imaginação e vomitou mais uma das suas memoráveis intervenções.

   ... Porque aprendem eles a escrever em manuscrito? É tão difícil! A letra de imprensa é bem mais fácil? Em Inglaterra não é assim! Eu nem consigo fazer o ‘H’. Como lhes ensina a desenhar as letras? Há uma forma?....
Eu não quero trabalhos de casa, já chega o que fazem na escola. Em casa, não temos tempo para essas coisas!

SOCORROOOOOOO.... a sérioOOOOOO?
Olha, olha... este demitiu-se. Não quer ser pai. SÓ PODE!!

Será que estou a ouvir bem? Ajudem-me, please??!! Não aguento. Vou verborreificar este ser! Alguém tem de lhe ensinar algumas coisas acerca da palavra timing e humildade. Será que me consigo controlar? Ai, ai, ai... só mais um bocadinho e ... ups! Numa troca de olhares cúmplice com  a professora, que tentava esclarecer o senhor da forma mais diplomata possível. Senti um empurrão do universo e, sem mais demoras, abri a exceção à regra - porque afinal até sei do que falo - e disse meia dúzia de frases para ajudar à festa. Yupiiiiii!!!

Deixei que todos saíssem e partilhei a sós com a professora, as minhas preocupações com o meu educando, num tête-à-tête de cinco minutos. Também a parabenizei pelo seu excelente desempenho. Pedi mais trabalhos de casa e saí radiante. Afinal, o meu lê, vai escrevendo e está feliz!

Na verdade,  depois de nos confrontarmos assim com pessoas de ‘barriga cheia e cérebro vazio’... e para que se acabem as dúvidas de uma vez, o que precisavam de ouvir TODOS os inteligentes como esta criatura, era que desde sempre existiram os apelidados tpc’s. Daaaaaa?!
Somos quase todos do tempo, em que haviam quilos de cópias  e contas para fazer, antes de se poder ir brincar para a rua com os vizinhos. Exageros à parte, os trabalhos de casa são uma realidade com décadas e de todas as famílias por esse mundo fora. Além do mais, são exatamente o que o nome indica: trabalhos de casa - DE CASA – ou seja, tarefas que se devem realizar debaixo do teto do nosso lar. Dúvidas?!

Claro que como em tudo, há os por e os contra, quer nas escolas, quer nas casas dos alunos, e até os que nada têm com o assunto, manifestam efusivas opiniões.

Politicamente falando, defende-se hoje que os trabalhos de casa são promotores de desigualdades, isto porque nem todos os alunos têm iguais condições de trabalho ou estudo em casa. Portanto, diz-se não aos tpc’s. Concordo, mas podemos sempre adaptar-nos às situações diversas e adversas, apelar à versatilidade e aplicar técnicas de diferenciação que permitam a integração e participação de todos. Sejam criativos!!

Num contexto de muito, recorre-se a recursos tecnológicos e pais, avós ou outros, mais ou menos, atentos.

Num contexto de menos, socorremo-nos daquela que deve ser a nossa ferramenta de trabalho permanente: a criatividade, e adequam-se os parcos recursos, para que todos possam colaborar, independentemente da sua realidade familiar e individual.

Por outro lado, há os que os defendem simplesmente pela sua eficácia e salientam a necessidade de insistir neles, pois promovem o foco, a atenção e são até motivação para alguns. Desenvolvem a autonomia, a responsabilidade e, ajudam em suma, a melhorar os desempenhos escolares das nossas crianças.

‘’ Se o hábito faz o monge’’, praticar é sinónimo de produção e sucesso. Se não, porque razão serão ferramentas características de sistemas educativos comprovados compatíveis e responsáveis por uma formação de excelência?!

O mesmo poderíamos dizer de escrita dita cursiva, manuscrita ou de carta. Para os intempestivos e facilitadores, fiquem a saber que esta prática, quase considerada uma habilidade do século passado, é uma ferramenta essencial para o desenvolvimento cognitivo das nossas crianças, tornando-as mais inteligentes e capazes.
Ao contrário de quando utilizamos a letra script ou de máquina, para esta  há uma especialização que estimula os dois hemisférios cerebrais, por áreas que integram sensações, controle do movimento e raciocínio. Desenvolvendo consequentemente a criatividade, a capacidade de resolução de problemas e o próprio controle da motricidade fina, através do exercício de coordenação entre a mão e o olho, envolvendo a informação visual, táctica e a própria habilidade do indivíduo.
A letra manuscrita é portanto mais personalizada e pode até permitir um reconhecimento de expressão individualizado.
E sim, há regras para desenhá-la. Tal como num qualquer processo de trabalho desenvolvido de forma coerente e sequencial.

Na vida, precisamos saber e conhecer de tudo um pouco, para depois escolhermos e podermos aprofundar, aquilo por que realmente nos interessamos.

Sobrecarga de tempo? Não me parece. Regra e rotina sem exagero, sempre! Prática e repetição são essenciais. Se não se praticar, como é que se aprende?!
Por favor, adequem! Vinte minutos por dia, nem sabem o bem que vos fazia!!
Porquê simplificar? Porquê bastar-se com o pouco, quando se pode ter o muito? Queremos pessoas mais inteligentes e menos capazes? Será isto possível?

Para mim, quem está mal, ou se adapta... ou MUDA-SE. E esta é apenas mais uma opinião. A MINHA!



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